segunda-feira, 16 de novembro de 2009

“Neve no vulcão”

Quando ela saiu da geladeira, feito fruta da feira passada, já não havia dentro de si o que semear, e ela murchou. A menina fez dos seus dias uma interminável colheita de lamentações.
Nada foi do que poderia ter sido e o destino inadiável se remediou no silêncio. Quantas palavras engolidas, quantos gemidos inconscientes...
Sua mente em desfragmentação tentava apagar os arquivos indesejados, mas ela... nada. Impregnada de desejos-incontrolados, se autodescongelava e partia novamente em busca de seu coração.
A visão do mundo era sublime... era cegueira... era censura própria, como o ópio mais doce que não se deseja provar.
A solidária tristeza que tinha por seu próprio amor, desfiava-se ao longe... e ela ia aprendendo pouco a pouco como era ser pouco feliz. Mas era a felicidade constante de um trem-fantasma e não aquela parca alegriainfeliz de montanha-russa, a que ela então se tencionava. Era a felicitude despercebida... desgostosa... des-pedida...
De repente, isso tudo não era mais só cozinha, nem sala ou quarto... tornou-se sua morada em si... e sua personal-habitação. Tomada por uma confiança invadida, sem-terra e sem-teto, ela enfim admitiu-se livre.
Era tudo para ela... era ela para tudo... tudo para ela era... Para ela... tudo!
E fugiu.


João F. A. Cunha

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