A tarde estava gostosa, calma e monótona, exatamente como Jaime apreciava... até que uma velhinha entrou em seu escritório, no centro de B.H.
Falava pelos cotovelos, atravessando assuntos, cobrando alguma atitude, sem nem mesmo se apresentar. Demorou só um “cadinho” pra ele deduzir o problema que se desenhava a sua frente... teria que trabalhar.
Foi assim, meio sem pressa, que ele explicou como era o seu complexo método. Pura observação e deduções lógicas, para desvendar mistérios e esclarecer dúvidas. Jaime era detetive particular. Quem o olhasse passando na rua, jamais desconfiaria. Óculos redondo, rosto redondo, corpo redondo e poucas palavras.
Era um caso complicado o da Dona Aurora. Desconfiar do marido, no ano das bodas de ouro, devia ser duro... e procurar um detetive foi a forma menos constrangedora que ela encontrou para dar fim àquilo tudo.
Sem sucesso, ele tentou acalmar Dona Aurora, em seguida pegou um copo de água-com-açúcar e tomou de um só gole, para conseguir ouvir todos os detalhes. Vale destacar que não eram poucos. A velha contou toda a sua própria rotina, a do marido, dos filhos e nem a bisneta ficou de fora da história.
O detetive pegou a caneta e um caderno. Minuciosamente ele foi preenchendo as lacunas e quando estava quase fechando aquelas palavras-cruzadas, ela enfim terminou. Jaime tirou os óculos, enxugou a testa e indagou:
– Mas Don’Orora, a papinha que a sinhora dá para sua bisneta é industrializada ou feita em casa?
Sem entender, a mulher perguntou o que aquilo tinha de relevante.
– Isso é o que eu pretendo descobrir, uai!
Dona Aurora retomou sua fala e ele, as palavras-cruzadas, balançando a cabeça e dizendo:
– Muito intrigante!
A velha já se sentia mais calma, definitivamente falava com alguém que entendia do assunto...
Muitas lacunas depois ele arrematou:
– E onde é que ele joga dominó, mesmo?
Seu Benedito não jogava dominó, jogava cartas na praça à frente do escritório de Jaime, por isso ela o procurara.
– Nó... Benza-Deus! – exclamou ele.
Quando a velhinha finalmente decidiu deixá-lo trabalhar, voltou-se para ele perguntando seu nome. A resposta veio cheia de felicidade.
– Trem, Jaime Trem!
Dona Aurora não entendeu de que “trem” o detetive estava falando e ele explicou:
– Uai, num tem aquele espião dos firme?
E a velha disse não compreender de qual “espião firme” ele falava, então, aborrecido se explicou:
– Os gringo tem o James Bond, e eu sou o Jaime Trem... é um código-nome, uai!
Insegura a mulher deixou uma foto do marido com ele e saiu. Uma semana era o prazo inicial, para ter alguma resposta.
Na manhã do dia seguinte, Jaime cochilava recostado sobre a mesa, quando foi abruptamente retirado de seus sonhos pelo telefone. Deixou que tocasse mais um pouco, simulando estar ocupado, na esperança de que desistissem. Não desistiram.
A voz arranhada e o ritmo desenfreado das palavras não deixavam dúvidas, era Dona Aurora, querendo saber o que ele já apurara. Dizer que não teve tempo suficiente, sequer para olhar a foto do coroa, não adiantou. Então decidiu se dedicar à sua cliente...
– Ô... Ô... Don’Orora, o que é que mais tem te irritado no Seu Binidito?
Sua larga experiência no ramo mostrava que não havia nada melhor do que pedir para uma mulher, falar mal do próprio marido e a velha “tirou a barriga da miséria”. Jaime pôs o telefone no viva-voz e retornou às palavras-cruzadas. Já estava ficando preocupado, pois normalmente levava uma semana para terminar cada revistinha, mas graças à velhota chegava nas últimas folhas, em menos de três dias.
Quando se deu conta, um silêncio pairava no ar, sua cliente terminara de falar. Automaticamente ele se pronunciou:
– Hum! Intrigan’ demais da conta, sô!
Nesse momento a velhinha iniciou um choro silencioso, forçando-o a tomar uma atitude radical.
– Don’Orora, a sinhora fique traquila, que eu tô na pista dele. Agora deix’eu desligar que nosso tempo é pricioso.
A coisa estava séria e Jaime realmente não queria perder tempo, por isso saiu de casa, atravessou a praça e parou na banca de jornal, precisava comprar mais palavras-cruzadas. Em seguida procurou uma loja de eletro-eletrônicos, pois havia um dispositivo indispensável para aquela missão, um identificador de chamadas, para que nunca mais atendesse a velha desavisadamente.
Na volta, passou novamente pela praça e vendo alguns anciãos distribuindo peças de dominó sobre a mesa, decidiu parar para jogar. O diabo era que os tais coroas jogavam pra valer. Depois de perder alguns trocados, ciente de que aquela investigação estava ficando muito dispendiosa, lembrou de perguntar sobre Seu Benedito. Muito querido entre os companheiros de jogatina, ele era reconhecido como um perdedor convicto. Deixava boa parte da aposentadoria por ali. Jaime refletiu alguns instantes e teve uma idéia “solucionática” (como diriam os grandes fãs de Dadá Maravilha), jogaria com Benedito até recuperar o dinheiro perdido.
Passou a semana perdendo e ganhando ainda mais naquela praça... Seu Benedito chegava desconcentrado, sempre reclamando da esposa e Jaime dava toda razão ao simpático idoso.
Ao fim de uma semana não teve como evitar e foi para o sacrifício. Ligou para Dona Aurora convocando-a para a reunião definitiva.
Mal ela chegou, foi despejando suas conclusões de mulher ferida, esperando a confirmação do detetive. Sua negativa trouxe a decepção ao rosto da cliente. Dona Aurora não acreditava que pudesse estar enganada. Cobrou fotos, sem querer ouvir os fatos verdadeiros. O velho perdia no jogo! Tanto é que Jaime dispensou os honorários pelo serviço, pois já o considerava pago.
Nesse momento Dona Aurora partiu para a ofensiva. Acusou o detetive de ter se vendido, aceitando suborno para negar a traição e disse que o denunciaria por extorsão se não apresentasse as provas. Por mais uma semana estendeu-se a angústia do senhor Trem e ele já se sentia amigo de Benedito. Sofria pelo velhinho, que aturava Dona Aurora há cinqüenta anos.
Numa tarde pôde flagrar Benedito sendo cumprimentado pela filha de Seu Maneco, outro freqüentador assíduo daquele “cassino da terceira idade”. Uma bela morena, diga-se de passagem. Tirou uma foto com a câmera digital, só por precaução.
Ao final da segunda semana, afirmou novamente a inocência do mais recente amigo e outra vez foi ameaçado pela esposa determinada. A terceira semana foi mais terrível... Dona Aurora fazia visitas diárias, queria olhar todas as anotações e arquivos do detetive. Dizia ter certeza do que investigava, tomava conta de seu escritório e Jaime Trem não resistiu...
– Don’Orora, a sinhora estava certa! – e apresentou a foto de seu Benedito com a filha de Maneco.
A velhota esboçou um sorriso... e fechou a cara ao ver a fotografia.
– Mas num é essa a diaba não, uai!
Jaime desacreditado perdeu completamente a razão.
– Ô Dona, eu até que tentei salvar o Binidito d’ocê... mas num tem jeito não, ô trem complicado! A sinhora que fique com o escritório, que eu vou é pra praça aqui da frente – e saiu, deixando de lado a profissão e o sobrenome.
terça-feira, 2 de junho de 2009
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Um comentário:
"Nú, véi...Ingraça'dimais..."
Ficou bom mesmo, muito divertido. Taí...
beijosssss
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