Pode parecer piada, preconceito ou exagero, mas prometo aos leitores, quase tudo que escrevo é pautado na verdade... creiam vocês ou não!
Um distinto cavalheiro português, instruído e curioso, tendo desembarcado a trabalho no Brasil, pôde experimentar os sabores da nossa terra. Oportunamente estivemos ambos em Salvador, onde ouvi a surpreendente narração.
Sem papas na língua, confessou-me ele a súbita maré de azar que lhe afogava. Sua visão das belezas-naturais soteropolitanas fora repentinamente embaçada por uma conjuntivite, que lhe obrigou a recolher-se durante um tempo. Contudo, no calor de uma tarde que arde, não resistiu a um passeio pela praia, onde, irritado pela coceira, decidiu lavar os olhos com água do mar, no intuito de desinfetar a vermelhidão que lhes tomava. Trágica opção! Os olhos quase saltaram pra fora e, em menos de uma hora, estava ele no hospital.
Segundo o próprio, nem o médico acreditou no que acabara de se passar, exclamando espantado:
– O que?!
Depois de justificar-se, ficou calado, ouvindo o doutor e sua prescrição. O colírio... o colírio... o colírio...
Acontece que este nome, ao qual estamos acostumados, não existe em Portugal, onde o nome dado ao medicamento, originado do conta-gotas, é “gotas para os olhos”. Aliás, tudo que se pinga deste mesmo modo, é por lá tomado assim, mas depois de alguma conversa, entendeu o português, do que o médico falava.
Terminada nossa refeição, concomitante a tal narração, ofereci-lhe uma xícara de café, dizendo que naquele restaurante, nos era dado por cortesia. Quando se aproximou a garçonete, trazendo um suco em sua bandeja, e perguntando se era nosso tal pedido, cordialmente respondemos que não e disse ele sem hesitação:
– Mas a cortesia...
A garçonete embaraçada, não entendia se ele brincava, querendo o suco sem pagar... quando interrompi:
– Queremos dois cafés!
E me apressei em lhe explicar o sentido daquela palavra, até que chegou nossa bebida. Ele não teve dúvidas, ao pegar o adoçante exclamou de cabeça erguida:
– Vou pingar o meu colírio!
Eram gotas de aspartame... que no seu entendimento teriam a mesma significação.
– Não! A palavra colírio é usada apenas para o medicamento...
Notei que ele estava confuso, não percebendo qual o uso devia dar pra palavra “gotas” e com auxílio de um copo d’água mostrei que as pequenas parcela de líquido, seja lá como tiverem sido criadas, podem assim ser denominadas.
– Mas a isto chamamos pingas! – disse-me ele numa só toada.
Segurei minha gargalhada, revelando que no Brasil também havia pingas, como sinônimo de cachaças...
Despedimo-nos bem-humorados, mas soube eu que, num outro dia... num boteco em que parara, o cavalheiro português ao bebericar um café expresso ainda não adoçado, disse imediatamente ao rapaz que ao balcão trabalhava, que ali faltavam pingas... E se já estava complicado dele se entender naquele lugar... imagine embriagado!
João F. A. Cunha
(21/09/2009)
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
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