sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Domingo em família

Passageiro na própria vida, às vezes me perco por caminhos inesperados, como na pele curtida e trançada-de-linhas daquela senhora que vi, sentada num banco da praça Thomas Edson, provavelmente, sem mesmo saber quem foi Thomas Edison.

A rotina dali, ao contrário, lhe era familiar. Maços e maços de cigarros, bolo ou torta salgada, semelhantes rostos desconhecidos...

Ela, grisalha, cansada, com roupa de missa, se compadece da inexperiência alheia, puxando assunto com uma quase menina, desnorteada na Zona Oeste paulistana.

Lágrima por lágrima, a senhora esclarece o que virá: primeiro a fila para o ônibus, o nó na garganta e os olhares acusadores. Depois o desembarque, nova fila, o grande limiar, a nudez forçada e a investigação invasiva. Celulares, drogas e famílias, que se perdem pelo caminho.

Em seguida, vêm a dor da culpa-desculpada, do abraço apertado, da liberdade vigiada.
Por fim, as portas que se fecham por todos os lados e no som de cada cadeado às próprias costas, o arrebatamento pelo rebento que se perdeu...

“A semana nos recupera, e prepara nosso corpo para a guerra da próxima visitação.”



João F. A. Cunha